Roberto Rodrigues de Menezes.

Roberto Rodrigues de Menezes



quarta-feira, 27 de junho de 2012

Contra toda esperança XVI.


Pedro Luiz Boitel, prisioneiro político de Castro, agonizava na sua tresloucada greve de fome.
O primeiro a aparecer foi um sargento, ajudante do tenente Valdez, chefe da polícia política naquele presidio. Quando o sargento ergueu o lençol e viu o que restava de Boitel, arregalou os olhos, deu um passo para trás e saiu correndo para avisar seus superiores. Era impressionante aquele esqueleto coberto de pele, que emitia apenas uns fracos gemidos. Os presos pediam assistência médica ao tenente que chegara. Valdez negou.
- Isso eu não posso. Vou informar ao ministério o estado em que ele se encontra. Mas não cederemos a nenhuma pressão. Boitel já nos cansou com suas greves.
Foi-se o tenente, as horas passavam e nada de cuidados a Boitel. Estávamos impotentes e desesperados. No dia seguinte tiraram-no da cela. Ele foi para uma salinha ali no presídio. Nela estavam Medardo Lemus, o chefe dos cárceres e prisões, o tenente Valdez, O'Farril e outros oficiais.
No alto das janelas da cela os detentos observavam a cena. Colocaram um biombo para impedir a visão, Boitel deitado. Um deles falou ao sargento:
- Quando ele parar de respirar, avise.
De madrugada se escutava a voz agonizante de Boitel pedindo água. De repente o silêncio. Boitel estava morto depois de 53 dias de greve de fome. Era 24 de maio de 1972.
Dias depois o tenente Abad se apresentou na casa da mãe de Boitel. 
Clara, ao vê-lo foi assaltada por uma de suas premonições:
- Meu filho está morto!
Um primo de Boitel estava na casa e o tenente o chamou para que desse a notícia à mãe. Mas Clara não esperou. saiu para a rua e dirigiu-se alucinada para a prisão do Príncipe. Mas os guardas, que a conheciam, não a deixaram passar nem da primeira guarita. Clara se negava a sair. Foi enfiada à força num carro de polícia e levada para a chefatura da polícia política. Noemi, uma amiga, fez questão de ir com ela.
- Não adianta.Vamos lhe dar a notícia, Clara, falou o tenente Abad.
- Que notícia, que notícia?...
- Seu filho já está morto e enterrado. Não grite, pois não está em sua casa.
Clara tentou se erguer do sofá, mas o tenente jogou-a de volta. Ele tentou de novo e Abad a esbofeteou. Puseram-na à força numa cela. Já noite avançada levaram-na de volta para casa, num carro patrulha. Gente da rua, do comitê de defesa da revolução, ameaçaram-na. Cortaram o seu telefone e lhe gritaram que não podia perturbar a ordem pública com seus gritos. No dia seguinte oficiais a avisaram do local em que o filho estava enterrado.
No dia 30 de maio, acompanhada por outras mães e familiares de presos, Clara tentou chegar com flores no túmulo do filho. Caminhavam para as valas comuns, onde eram enterrados os fuzilados. Mas no caminho fora  interceptadas, insultadas e agredidas por um grupo de mulheres armadas com bastões de madeira. Não lhes permitiram sequer uma oração.
Algumas das agressoras, se bem que estivessem a paisano, sabia-se que pertenciam à polícia política.
A notícia da morte de Boitel, o preso mais rebelde das masmorras de Castro, chegou até nós, prisioneiros, pelo dr. Gallardo, um médico preso que nos visitava  e que depois viemos  a saber que era um agente infiltrado.
Algumas semanas mais tarde, na casa do oficial do ministério do interior, Alfredo Mesa, no bairro do Cassino Esportivo, nos arredores de Havana, e enquanto preparavam espingardas para a caça aos patos dos pântanos de Zapata, Medardo Lemus comentou que Fidel deu a ordem de "liquidarem Boitel para que não fodesse mais".
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É uma pena Lula não gostar de ler. Poderia conhecer algo mais que a política chinfrim que sempre utilizou e ter horizontes de conhecimento histórico bem mais amplos. Senhores da mentirosa comissão da verdade, peçam a Raul Castro uma reparação para a família de Boitel. Como?... Ah, isso é ingerência nos assuntos internos da amada Cuba? Entendi!...
Em tempo: Boitel não teve balas paulistinhas para lhe aliviarem a fome.
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