Roberto Rodrigues de Menezes.

Roberto Rodrigues de Menezes



quarta-feira, 7 de novembro de 2012

A GUERRA DO CONTESTADO.



Importante documento de meu confrade Tenente Coronel Francisco de Assis Vitovski, historiador e romancista da Academia de Letras dos Militares Estaduais. Já que vou a Blumenau e me ausento por dois dias, deixo este brilhante documentário com meus caros leitores.

A GUERRA DO CONTESTADO

100 ANOS

          Estamos vivenciando 100 anos da guerra do contestado. Muitos atos e solenidades vêm sendo feitos em razão disto, ocasião em que algumas pessoas se referem aos mesmos como “comemorações dos 100 anos da guerra do contestado”. Eu discordo deste termo “comemorações”, por achar que uma guerra nunca pode ser comemorada, mesmo que a tenhamos ganhado.
          Este conflito armado, que segundo o pesquisador e historiador Fernando Tokarski deixou em torno de sete mil mortos, vindo na sequencia da guerra dos Farrapos e de Canudos, foi com certeza maior que a de Canudos, porque enquanto lá era apenas um arraial, aqui eram vários redutos (vilas) de caboclos. Foi com certeza menor no número de mortos, mas isto se deu em grande parte pelo comedimento dos comandantes militares, tanto que a maioria das mortes de civís foi pela fome e doenças, ao se dispersarem nas matas locais. Apenas não tínhamos aqui em Santa Catarina, como lá na Bahia, um Euclides da Cunha para empolgar o assunto, nem os líderes caboclos o apoio declarado da Maçonaria, como Bento Gonçalves no Rio Grande do Sul. Por isto o assunto ficou praticamente em aberto até hoje.
          Mas foi um movimento bélico que deslocou generais para os planaltos sul e norte catarinense e onde foi usado pela primeira vez um avião em uma guerra.
          O espaço para estudos é imenso e o assunto empolgante, mas até hoje muitos autores vem produzindo livros basicamente copiados uns dos outros e cuja pesquisa se acentua somente nos dias atuais, 100 anos depois do feito, principalmente por Fernando Tokarski e Antonio Dias Mafra.
          Nos próximos dias teremos em Canoinhas o lançamento de mais um livro sobre o assunto, da escritora Rosa Maria Tesser. Confiamos na professora Rosa Maria e esperamos um trabalho de pesquisa à altura. Isto porque alguns autores tem se mostrado apenas como mascates de livros, escrevendo besteiras, até sensacionalistas, com o objetivo puro e simples de vender seu livro. Se nos Estados Unidos hoje a moda é achincalhar os muçulmanos, aqui no Brasil a moda é criticar os militares, tanto que um desses autores escreveu que o exército dizimou os caboclos, utilizando os fornos de queima de serragem e resíduos de madeira da madeireira Lumber Corporation como crematório dos mesmos. Tem muita gente que ainda não sabe o que é a liberdade de expressão. Ou pensam que todos nós, brasileiros, somos burros.
          E valorizando os atos relativos a este centenário, está acampada aqui em Três Barras, na área do Centro de Instrução Marechal Hermes, do Exército Brasileiro, exatamente onde era o pátio da Lumber Corporation, a COMPANHIA DOS INDESTRUTÍVEIS.
          A Companhia de Preservadores de Viaturas Militares Indestrutíveis, sediada em Florianópolis, é uma associação de empresários catarinenses que mantém veículos e artefatos militares baixados no uso das Forças Armadas e veio para cá com 42 veículos militares antigos, lindamente restaurados e preservados, parecendo novos.
          Trouxe a seguinte mensagem:
HOMENAGEM DOS INDESTRUTÍVEIS AOS CIVÍS E MILITARES IMOLADOS NO CONTESTADO.
          A Guerra do Contestado foi o evento bélico mais importante da história de Santa Catarina. Chamada como Contestado em virtude dos muitos conflitos e por ser uma região de disputa de limites entre os dois Estados Brasileiros.
          A formatação histórica do Contestado é ímpar. Não há uma motivação única com início, meio e fim, para caracterizar o fato. O evento é entendido como a insurreição do sertanejo catarinense, provocada pelo avanço do capitalismo na região, influenciada pela construção da ferrovia. O Exército Brasileiro foi convocado para atuar nesse conflito, com o objetivo de pacificação.
          Visitando a rica história de Santa Catarina, a Cia Indestrutíveis aproveita a oportunidade para realizar exposição de suas viaturas, palestras e visita à região onde ocorreu o conflito. Esta expedição não se caracteriza por uma viagem apenas, mas sim, a intenção da Cia Indestrutíveis e de seus integrantes, de prestar uma homenagem aos civis e militares que tombaram na luta por seus ideais na Campanha do Contestado, quando a luta que se travou entre irmãos completa 100 anos.
          Batizada de EXPEDIÇÃO POTIGUARA II, a Cia Indestrutíveis busca homenagear o capitão Tertuliano Potiguara de Albuquerque, que comandou em 1915 as ações que desarticularam e quebraram a resistência cabocla, colocando fim a esta guerra.”

          No circuito das atividades desses colecionadores e estudiosos das viaturas e artefatos militares, por via de consequência das atividades militares, estava uma visita ao 3º. Batalhão da Polícia Militar, BATALHÃO JANUÁRIO CÔRTE, também chamado de “Sentinela do Planalto”, exatamente por constituir-se um baluarte do Contestado, visita esta que ocorreu no dia 31 de outubro último com uma solenidade militar.
          Para este evento, o tenente coronel Mario Erzinger, comandante do batalhão, convidou-me para produzir e ler um texto sobre o Contestado, evidenciando os feitos do combatente major Januário Côrte, que legou seu nome àquela unidade militar.
          Assim eu me pronunciei:

          Há 100 anos o Brasil tinha suas divisas externas e internas indefinidas.
          Depois da união dos dois adversários - Portugal e Espanha - para a eliminação das reduções Jesuítas dos sete povos das missões - algumas já cidades com 210 anos, como São Miguel - missões essas que se formavam numa tentativa de ocupação pacífica pelo governo português aos selvícolas que se intitulavam donos das terras, ficou muito claro que a ocupação deste continente era uma preocupação DE ESTADO, organizada sobretudo na arrecadação de tributos que promovessem a sustentação deste Estado, para uma ocupação ordenada da área, extensa e inexplorada.
          Eliminadas essas cidades religiosas que tinham crescido à revelia do Estado e que já tinham um comércio exterior expressivo, exportando alimentos, obras de arte, artigos de metal (principalmente sinos) - as demais missões como CIUDAD REAL e VILLA RICA nas imediações de Foz do Iguassú e SÃO TOMAZ DE PAPANDUVA aqui no planalto norte catarinense, com medo de represálias também deixaram de existir.
          Com isto os indígenas voltaram às matas e aos campos e puseram-se em combate com os comerciantes (bandeirantes e tropeiros) e com os prepostos do Estado que eram espalhados na região para implantar postos de arrecadação - onde via de regra se formava uma nova cidade.
          Em 1842, Pedro Siqueira Cortes, implantou um caminho de tropas entre Palmas e Palmeiras, que encurtava em 20 léguas o Caminho das Missões e passava no Vau do Rio Iguassú, em Porto União, caminho este que passou a ser conhecido como Estrada da Nação.
          Os rios eram caminhos naturais e o tráfego entre Porto União e Porto Amazonas era intenso, buscando Ponta Grossa e de lá São Paulo. Mas paralelamente a estes, eram necessários caminhos de terra, que conduzissem as frotas de mercadorias levadas por muares.
          Traçou-se então - naturalmente - um caminho de tropa que ligava o planalto sul ao planalto norte - entre o caminho das tropas que passava em Lages e o rio Iguassú - que conduziria tanto para o norte (Porto Amazonas - Ponta Grossa - São Paulo) como para Palmas, atingindo o Caminho das Missões.
          Este caminho, do planalto sul ao planalto norte, cria a vila de Curitibanos no final do planalto sul e início da serra e aqui, no início do planalto norte, ao cruzar o rio Itapeba (hoje rio Canoinhas) se forma a vila de Canoinhas.
          Com isto a região passa a ser disputada por fazendeiros - que ganhavam as terras do Estado - por comerciantes (conhecidos como mascates) e por via de consequência por grileiros e salteadores.
          Nas matas, iniciava-se outro tipo de povoamento, o dos CABOCLOS, que eram na maioria negros remanescentes da escravidão e por origem africana viviam em liberdade nas florestas, os quais se acomodavam - sem lutas - com os XOKLENG e os KAIGANGS que ocupavam a região.
          Mas a extinção das missões jesuítas, deixara sem tarefa os missioneiros, aqueles que em nome de Deus ou de algum santo, adentravam às matas para atrair os índios. Estes, então, passaram a visitar esses povoamentos caboclos e lá faziam sua pregações. Aqui no planalto norte o mais famoso deles foi João Maria de Agostinho, cuja presença foi registrada na passagem das tropas federalistas em 1896, quando o coronel Angelo Dourado, em sua memorável obra “Voluntários do Martírio” relata o monge SÃO JOÃO MARIA, celebrando ofício religioso, que tinha como catedral uma enorme árvore de imbuia rodeada por fiéis que seguravam uma vela acesa.
          Destaca-se que a missão destes, agora, era puramente religiosa e para não perder espaço, a Igreja Católica que adentrava à região com outras ordens religiosas, promove os missionários, determinando-lhes buscar os redutos caboclos, para mantê-los como fiéis católicos.
          Estes redutos caboclos, no entanto, passavam a constituir-se abrigos para bandidos, fugitivos e espertalhões e estes, que via de regra assumiam a liderança do grupo - pela força ou pelo medo - não eram ligados à religião e sobretudo não gostavam de padres, pois estes levavam consigo uma caderneta onde anotavam tudo o que viam e ouviam, razão pela qual os bandidos achavam que eles repassariam tais informações para as forças militares que atuavam na região.
          Junto com esta ocupação territorial, passam a ser definidas as fronteiras estaduais. São Paulo cede as VACARIAS DE SÃO PEDRO DO RIO GRANDE para que lá se forme o Estado do Rio Grande do Sul. Depois, cede os cobiçados campos gerais para a implantação do Estado do Paraná.
          Santa Catarina ficara com o litoral, entre o mar e os contrafortes  da Serra do Mar.
          Assim adentramos ao século XX.
          Ocorre que à revelia desses acertos político-administrativos, os catarinenses já tinham ultrapassado a serra e ocupavam os planaltos sul e norte, trazendo a dúvida se eram catarinenses ou paranaenses e a qual dos dois Estados deveriam pagar seus tributos.
          Os dois Estados, por óbvio, queriam os impostos produzidos na região e passaram a incentivar o boicote e mesmo a destruição de postos de arrecadação de um e de outro, por “diligências” comandadas por funcionários públicos estaduais, quase sempre os chefes das contadorias estaduais, um destes com o qual ainda convivi, o canoinhense NHÔCA QUADROS, que ao aposentar-se passou a ser consertador de guarda-chuvas.
          No primeiro acordo de limites entre os dois Estados, ultrapassada a serra, no planalto sul a divisa seria no rio Marombas e no planalto norte o rio Preto (entre São Bento e Rio Negrinho).
          Naquela época, o exército estadual, por assim dizer, era o Regimento de Segurança. Lá, em Florianópolis, estava um sergipano, JANUÁRIO DE ASSIS CORTE.
          Consta que Januário teria nascido em 21 de maio de 1865  na cidade de Aquidabã, interior do Estado de Sergipe, filho de José Corrêa Dantas e Francisca Vieira Dantas.
          A história de Januário por nossas terras se inicia em 1894. Não se sabe por que veio para cá, mas em 2 de junho de 1894, inclui no Corpo de Segurança do Estado de Santa Catarina, como soldado.
          Não existem registros que tratem de sua vida até o seu ingresso no Corpo de Segurança, mas seu aculturamento e grau de instrução profissional eram com certeza elevados, haja vista que em 4 de outubro do mesmo ano, apenas quatro meses depois de ter ingressado, já Sargento Ajudante ( função privilegiada do sargento mais antigo da corporação) é promovido a Alferes. Neste período o Estado de Santa Catarina era governado por Hercílio Luz e esta promoção é significativa, porque em 1894 o efetivo do Corpo de Segurança era de apenas 350 homens e destes 11 eram oficiais. Portanto uma carreira meteórica, deixando a entender que o mesmo se destacava cultural e profissionalmente dos demais. Além disto, é muito prestigiado por Hercílio Luz nos anos que se sucedem.
          Em 22 de fevereiro de 1896 é promovido a tenente e em 14 de agosto deste mesmo ano de 1986 recebe a missão de seguir para o interior do Estado, coibir manifestações por questões de limites entre o Paraná e Santa Catarina.
          Ainda no governo de Hercílio Luz, em 4 de fevereiro de 1897 é promovido a Capitão e de certa forma, passa a ser um diplomata do Estado, seguindo para diversas regiões, em missões determinadas pelo governador.
          Em 12 de janeiro de 1902 vem a São Bento do Sul, representando a Secretaria Geral dos Negócios do Estado, para tratar exatamente das questões de limites, que na época chegavam até ali.
          Mas os catarinenses e o próprio Estado, apelaram pelo direito de “uti possedetis” e em novo acordo, os limites de Santa Catarina foram estendidos até o Rio do Peixe.
          Em 20 de junho de 1911 Januário vem para Canoinhas, de onde retornou em 21 de agosto, mas em 11 de dezembro volta a esta cidade, agora com um pequeno contingente militar. Aqui, em 17 de janeiro de 1912 é promovido a major, o segundo posto da escala hierárquica de sua corporação, só retornando da missão ao quartel do Regimento de Segurança, em Florianópolis, a 14 de março de 1912, três meses depois que saíra.
          Era a discussão político-administrativa entre Paraná e Santa Catarina por seus limites, vez por outra acompanhada de um pequeno contingente militar.
          Concomitante com isto, o término da ferrovia São Paulo-Rio Grande, no Rio Grande do Sul em 1910, demite cerca de 10 mil trabalhadores, entre os quais a maioria nordestinos, assim como poloneses, alemães e austríacos, dentre outros europeus contratados para a execução da obra.
          O Rio Grande do Sul já estava ocupado por grandes fazendas e não absorveu esses trabalhadores. Além disto, a Lumber Corparation iniciava a construção de outras ferrovias, entre as quais a que ligava Porto União ao porto de São Francisco do Sul. Isto atraiu para cá aquela massa de operários que, sem “eira nem beira” se acomodavam nos redutos caboclos.
          Da região de Curitibanos, era dono - literalmente - o coronel Albuquerque, cujas terras tinha ganhado do Estado de Santa Catarina.
          Ocorre que lá começa a se formar um reduto caboclo, pobre, desprovido de alimentos e armas, o qual começa a servir de guarida para bandidos da região. Foi quando chegou neste um desertor da Força Pública Paranaense, chamado José de Maria (citado por alguns historiadores como o 3º. monge - mas que na verdade não era religioso), espertalhão, letrado, trazendo de baixo do braço um livro com a história de Carlos Magno.
          Nesta condição passou a ser prestigiado pelos caboclos. Todas as tardes lia para a pequena urbe um trecho do livro, quando eram também proferidas algumas orações, chamadas as “rezas da tarde” e através disto foi implantando um reinado e uma segurança particular a exemplo de Carlos Magno, com os doze pares de frança e as mulheres da côrte (para o que exigia as virgens do acampamento). Como não tinham armas, exceto facões adquiridos ou roubados na vila, ensinou os caboclos a talharem facões de pau, com uma madeira muito forte encontrada na região, cujas pontas “furavam” os oponentes.
          Preocupado com isto o coronel Albuquerque exige do Estado de Santa Catarina que os mesmos sejam retirados de suas terras.
          Foi então que em 24 de setembro de 1912, JANUÁRIO DE ASSIS CÔRTE, que mesmo como capitão da Força Pública, era Comissário de Polícia da Capital, é destacado para a Vila de Curitibanos, comandando um contingente militar, a fim de defender a população e perseguir este bando de malfeitores.
          O tal JOSÉ MARIA, esperto, tinha seus “bombeiros”, os quais avisaram do deslocamento deste contingente militar. Por isto, ele resolveu conduzir seu grupo para uma região denominada Banhado Grande, onde um amigo seu possuía uma fazenda, denominada Fazenda São João do Irani, já no Estado do Paraná, e os abrigaria.
          O líder julgava que o grupo seria perseguido pelo contingente de Januário e em uma das “rezas da tarde”, na tentativa de manter os caboclos unidos para o combate, disse que recebera orientações do espírito do Monge João Maria e que este lhe dissera que aconteceria um grande combate com militares e que os caboclos deveriam obedecer suas ordens, mas que apesar disto ele seria morto.
          Assim, ultrapassaram as divisas entre Santa Catarina e Paraná.
          Ao governo do Paraná chegou a notícia que os catarinenses novamente tinham ultrapassado as divisas e se instalaram em Irani.
          “De novo? - teria dito o governador. - Agora chega! Pega uma força militar, vai lá e expulsa esses barrigas-verdes!”
          Foi então chamado um pernambucano, o capitão João Gualberto, que seguiu com uma tropa da Força Pública Paranaense em direção à Irani. Ao passar em General Carneiro, João Gualberto convoca alguns vaqueanos da região, entre eles Pedro Varela. Ao atingir os Campos de Palmas, na localidade chamada Horizonte, na hospedagem de Tonico Branco, onde pernoitou, resolve dividir sua tropa, mandando a maior parte desta para a cidade de Palmas, temendo uma invasão pelos caboclos após sua dispersão.
          Com a fração de tropa que ficara consigo, dirigiu-se ao Banhado de Irani.
          Tentando evitar o confronto, mandou Pedro Varela levar um bilhete escrito à lapis para José Maria, que respondeu ao mensageiro que bilhete à lápis não tinha valor e os caboclos estavam  prontos para o combate.
          Realmente ocorreu o combate e ambos, José Maria e João Gualberto foram mortos.
          O capitão Gualberto foi conduzido à Curitiba e reverenciado como herói, enquanto os caboclos, os soldados e os vaqueanos mortos, foram enterrados na conhecida VALA DOS 21. Muito pouco se sabe, no entanto, até hoje, quem foi ali sepultado.
          Aí está um diferencial da questão, que se impõe aos estudiosos do Contestado: os militares registravam os fatos. Os caboclos não. Muito desta história nós só sabemos pela versão militar. Outras pelos livros de Tombo das Igrejas católicas, onde eram “tombados” os dados registrados nas cadernetas dos padres.
          Os caboclos remanescentes de Irani se reagrupam e um ano depois formam o reduto de TAQUARUSSÚ DO BOM SUCESSO.
          Como as premonições do ex-líder, de que haveria um grande combate e ele seria morto tinham dado certo, os caboclos passaram a crer que realmente ele incorporava o Monge João Maria e diariamente, nas tardes, rezavam para seu espírito. Foi quando uma das ditas virgens, a mais influente, chamada VIRGEM TEODORA, tem uma visão que a partir daquele momento ela passaria a incorporar o monge João Maria e que por ordem do mesmo, todos deveriam se unir em torno da fé a São Sebastião.
          Ao mesmo tempo se formam outros redutos, como o da PEDRA BRANCA, o de CARAGOATÁ e o maior deles, SANTA MARIA, todos disputados por lideres que ameaçavam os fazendeiros, com os quais muitos conseguiam conchavos e vantagens para ambos, mas atacavam sem piedade as vilas, colônias e sobretudo a Lumber Corporation às margens da nova ferrovia.
          Por isto os fazendeiros e a Lumber tinham seus piquetes de “vaqueanos”, mercenários pagos para defender as propriedades contra os saqueadores, a quem chamavam de “jagunços”. O Piquete da Lumber tinha mais de duzentos homens, fortemente armados com winchester calibre 44 e revólveres SW 44 e 38.
          Os redutos caboclos se comunicavam entre si e a doutrina da VIRGEM TEODORA dominava essas cidades caboclas, contrariamente a intenção dos padres da igreja católica que eram expulsos desses locais, razão pela qual passaram a ser chamados de fanáticos. Como se disseminava a fé em São Sebastião, temia-se também o “sebastianismo”.
          Com isto, atingindo a igreja católica, extrapolava os limites estaduais, razão pela qual os estados de Santa Catarina e Paraná pediram a intervenção do governo federal, o qual optou por acabar em definitivo com essa dissidência à lei e à religião, enviando tropas federais para eliminar os “jagunços fanáticos”.
          Destaque-se que no reduto de CARGOATÁ, por exemplo, tinha mais de 600 casas, escola, igreja e roças de milho, feijão e mandioca.
          Para esta operação de guerra, uniram-se Exército, Força Pública estadual e piquetes de vaqueanos.
          Em uma escala muito menor, é claro, repetia-se a aniquilação dos sete povos das missões.
          Foi então que aparece novamente Januário de Assis Corte, em 31 de dezembro de 1913, com o todo o Regimento de Segurança, a fim de reunir-se às forças que se achavam em operação na Vila de Curitibanos. Saindo de Florianópolis, chegou em Lages depois de 7 dias e mais 3 em Curitibanos, de onde, em 26 de janeiro de 1914 levantou acampamento com destino ao reduto de Taquarussu do Bom Sucesso. A 3 de fevereiro, com Forças do Exército, artilharia, infantaria e a Força Policial, estavam no Espinilho, sob o comando do Tenente Coronel Duarte de Aleluia Pires.
          Os jagunços estavam bem organizados e ambientados ao terreno. A 8 de fevereiro de 1914, pela tarde, chovia torrencialmente quando a luta começou. A tempestuosa noite de 8 para 9 foi passada em bivaque, com abnegação e resistência, onde a tropa deveria a qualquer custo manter a posição.
          Os remanescentes dos jagunços retiraram-se para Caragoatá.
          Em 14 de fevereiro o contingente iniciou o deslocamento para o reduto de Caragoatá e a 9 de março Januário foi encarregado de um reconhecimento no esconderijo inimigo, missão perigosa e arriscada, que executou disfarçado de mascate.
          Após as ações em Caragoatá, seguiu para Canoinhas, passando por Perdizes, Cachoeiras e Fazenda dos Pardos, chegando em 31 de março e daí para Florianópolis, apresentando-se em 22 de abril, entregando o comando das tropas ao major do Exército (comissionado como tenente coronel) Gustavo Schmidt.
          Passadas as missões de campanha, Januário se aposenta e vem residir em Canoinhas , onde possuía terras, recebidas por pagamento da construção da estrada que ligava Canoinhas à Colônia Ruthes, empreitada em sociedade com o Major Manoel Thomaz Vieira, da Guarda Nacional. A Colônia Ruthes, transformada em Município, toma hoje o nome de Major Vieira.
          Tão logo chega à cidade, em 8 de janeiro de 1923 é nomeado prefeito substituto, exercendo este cargo até 26 do mesmo mês e ano.
          Em 19 de julho do mesmo ano foi nomeado prefeito novamente, exercendo o cargo até 01 de dezembro.
          Depois disto Januário teria sido Conselheiro Municipal (Vereador),.
          Em 24 de março de 1926, aos 61 anos de idade, falece em Canoinhas, repousando hoje lado a lado ao velho sócio e amigo, o Major Manoel Thomaz Vieira.
          Em 6 de julho de 1930, por proposta do comandante Lopes Vieira, seu nome foi dado à rua fronteira às casas da Vila Militar, em Florianópolis.
          Em 20 de março de 1949 foi fundada a Loja Maçônica JANUÁRIO CÔRTE, sendo a denominação proposta por Rodolfo Geraldo da Rosa, "em homenagem ao grande Oficial da Polícia Militar de Santa Catarina, com relevantes serviços prestados à Maçonaria catarinense".
          Com a criação do 3º. Batalhão de Polícia Militar na cidade de Canoinhas em 29 de novembro de 1960, palco que fora esta cidade da guerra do contestado e onde Januário havia se destacado como combatente, a Polícia Militar resolveu homenagear o ilustre comandante, dando seu nome a este batalhão.
          Também foi dado o nome de Januário de Assis Corte para uma rua no bairro Alto da Tijuca, da cidade de Canoinhas.
          No portal da Polícia Militar de Santa Catarina, consta nos atos heroicos da corporação o seguinte comentário:
          “A Campanha do Contestado (1912/1918), na qual se destacaram valorosos soldados, colocando-se em evidência o Major Januário Corte e o Capitão Euclides de Castro, conhecido como Capitão Canudinho, que comandou o último combate da Campanha do Contestado – Batalha do Tamanduá –, quando rendeu aproximadamente 5.000 revoltosos;”
          Januário deixou os filhos: Alinor (professor normalista), José, Agenor, Álida, Nadir, Eutália, Olivério (contabilista), Ivo, Jair, Sidney José e Pedro Paulo.
          Nesta data, outubro de 2012, ainda vivem os filhos Ivo e Pedro Paulo.
          Seus filhos Alinor e Olivério também foram prefeitos de Canoinhas. Alinor, entre 14 de abril de 1936 e 8 de julho de 1944 e Olivério, de 12 de agosto de 1944 a 21 de novembro de 1945 e de 11 de fevereiro de 1946 a 26 de dezembro de 1947.
          Do filho Alinor, legou à Polícia Militar do Estado de Santa Catarina o neto coronel RR Dinoh Antônio Côrte e os bisnetos tenente coronel Dinoh Antônio Côrte Filho, hoje servindo na 4ª. Região Militar, sediada na cidade de Chapecó e José Renato Côrte, este último deixando a Polícia Militar quando ainda era tenente para ingressar no Ministério Público do Estado.
          O coronel RR Dinoh Antônio Corte comandou este batalhão da Polícia Militar que leva o nome de seu avô, de cujas mãos honrosamente eu recebi o comando desta mesma unidade militar para comandá-la, que o fiz sob a evocação de seu patrono e seus feitos.
          Foi assim que nós, policiais militares de Santa Catarina, participamos deste evento bélico em nosso Estado.
          Destaque-se que os caboclos foram as grandes vítimas. Eles queriam apenas viver em paz, mas foram aliciados como massa de manobra de bandidos e supostos líderes.
          Depois das batalhas, quando foi usado pela primeira vez o avião em uma guerra, ocasião em que o capitão Ricardo João Kirk ao fazer um voo de reconhecimento sobre o reduto de Santa Maria, despencou com seu aeroplano sobre o local denominado Passo da Galinha, hoje município vizinho (paranaense) de General Carneiro - saíram dois aviões do Rio de Janeiro, embarcados em um trem, mas um deles incendiou ao receber uma fagulha da maria fumaça - os caboclos se dispersaram nas matas.
          Os líderes que não foram presos foram cassados pelos vaqueanos e sujeitos à degola, por ordem do Estado. Mas a degola - chamada de gravata vermelha - feita pelos piquetes de vaqueanos, estendeu-se a todos os jagunços seguidores desses líderes.
          O trágico desta história talvez tenha sido o fato do Estado ter compactuado com esses piquetes de vaqueanos, pois eram constituídos por matadores que o faziam sem dó nem piedade, fossem homens, mulheres ou crianças. Alguns destes chefes aproveitavam para resolver suas mazelas pessoais ou de seus patrões, matando muitos oponentes.
          Os caboclos então, espalhados nos sertões, aos milhares, esfomeados, esquálidos e doentes, uniram-se e dirigiram-se a Canoinhas em 1915, não para saquear, mas querendo ajuda. Ao contrário do que esperavam, foram recebidos a bala e a maioria deles mortos.
          É portanto sobre este chão, tingido de vermelho, - conta-se que por vezes as águas dos rios eram vermelhas, do sangue das pessoas -  que nós crescemos, por via de consequência não só fisicamente, mas também em espírito.
         Congratulamo-nos com os senhores, que refazem os caminhos das tropas militares, pois podemos, com segurança, repetir que: A HISTÓRIA DE UM POVO É A HISTÓRIA DE SEUS CAMINHOS.
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